segunda-feira, maio 9

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 10

O bairro da periferia contrariava as estatísticas que proclamavam a descida abrupta da taxa de natalidade. O grupo de meninos tinha andado a namorar durante dias o alto muro que ficava no fundo do bairro, não sabiam o que estava do outro lado, só o imaginavam pelo estonteante aroma a maçã que se evolava no ar. 
Reuniram-se para combinar uma estratégia e decidiram unanimemente fazer o que todos os meninos em todas as partes do mundo fazem, desde tempo imemoriais, saltar o muro para roubar maçãs.
Quando desceram, do outro lado do muro, encontraram um mundo totalmente diferente, um jardim encantado, com muitas árvores de fruto, na sua grande maioria macieiras plantadas por entre flores silvestres.
Até onde a vista alcançava viam-se anjos e arcanjos, louros e rosados,com asas douradas brilhantes esvoaçando entre as árvores e as flores, competindo com os pássaros e as borboletas. Alguns, em grupo, conversavam e riam dos seus chistes, enquanto comiam bolos coloridos que apanhavam de algumas árvores.
Os meninos ficaram estáticos perante aquele cenário, sem saberem bem que atitude tomar, se roubavam as maçãs e fugiam ou flanavam por ali explorando o paraíso.
Se ao menos tivéssemos alguém que nos guiasse! - disse um deles.
Querem que vos sirva de guia e mostre as atracções?
As crianças olharam para todos os lados, sem entenderem quem se lhes tinha dirigido.
Aqui em cima, estou aqui. - disse a mesma voz.
Seguindo a indicação da voz depararam-se com uma serpente que lhes acenava com a cabeça. Assentiram e lá foram eles.
- Vamos aqui pelo centro, como já perceberam há por cá muitas macieiras, podem comer maçãs de todas, excepto desta maior, dá umas maçãs muito apetitosas mas não vos aconselho. Da última vez que alguém as comeu foi um sarilho descomunal, eu bem avisei mas o Adão e a Eva não me deram ouvidos, foram expulsos daqui depois de uma repreensão divina que durou dias.
Continuaram o passeio, observando tudo com curiosidade enquanto a serpente descrevia as várias hierarquias de criaturas celestes que povoavam o local: 
- Ali os s serafins, os querubins, os tronos, que mantêm íntimo contacto com o Criador. Acolá os domínios, as virtudes e as potências, são os encarregados dos acontecimentos no Universo. Além os que executam as ordens de Deus, os principados, arcanjos e anjos. 
Chegados junto a Deus, barbas brancas de neve encimadas por uma cabeça coroada de caracóis brancos, uma das crianças perguntou:
Para que serve isto?
A serpente pareceu atrapalhada, pigarreou e por fim disse:
- Bem... Não se sabe... Já ninguém aqui se lembra... Já perguntei a todos, desde o serafim mais novo ao anjo mais velho e ninguém me soube responder.
As crianças fitaram, cheias de curiosidade, a mole imensa que resfolegava e ressonava. Deus dormia numa mansa placidez, ignorando que era totalmente obscuro, que já todos o tinham apagado da memória eterna.

terça-feira, maio 3

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 9

A lembrança de Pedro Quevedo continuava a martelar-lhe na memória. Sentia-se oprimido como se uma mão gigantesca lhe apertasse a alma. A atmosfera ao seu redor contribuía para essa opressão com o seu silencioso calor húmido. De pé, encostado a uma árvore, sabendo que aquele era o seu derradeiro momento de vida, as imagens passam ininterruptamente pelas suas pálpebras cerradas, a chegada de Pedro Quevedo ao aquartelamento, as longas conversas durante as partidas de xadrez intermináveis, a bonomia, o humor corrosivo, a placidez, a forma de estudar as jogadas, a concentração, “Porquê?”. O silêncio opressor do mato parecia tornar-se ainda maior se tal era possível “Porque o matei eu se era seu amigo?”.
A face do jovem major permanece inexpressiva apesar dos pensamentos perturbados que lhe cruzam a mente. Subitamente toda a natureza à sua volta se transformou num turbilhão de sons e movimento, as folhas agitadas por um vento frio, as aves enlouquecidas que começavam a cantar freniticamente, numa aflição, as perdizes que pipiavam assustadas.
Mergulhado nos seus pensamentos atormentados o jovem major não se dá conta da agitação da natureza, a sua tormenta interior abafa completamente a tormenta da natureza, o lago cujas águas se crispam como se fervessem, as folhas que parecem lutar umas com as outras, o esvoaçar alucinado de mil asas. O silêncio impõe-se novamente no memento em que ele abre os olhos e vê a morte.
Andulo ficaria para sempre ligado ao ex-comando Armindo Panguila Pombeiro, fora lá, naquele lugarejo perdido na mata que fizera o seu primeiro morto, recorda-o encostado à árvore, os olhos cerrados, a expressão aparentemente serena, não sentira sequer a sua aproximação, só abrira os olhos um décimo de segundo antes da faca penetrar o seu corpo tenso, fora um olhar atormentado que o fitara, o seu primeiro e único morto, que expirara junto ao seu coração, quando o seu corpo se inclinara em câmara lenta para a frente, pesando-lhe nos braços.
Armindo começou a morrer no dia em que, caminhando descuidado pelo mato, absorto na lembrança da morte do major, pisou uma mina. 
Agora, ali, no branco frio do hospital, dias depois de verificar que já não era um homem completo, pois tinha perdido alguns dedos da mão direita e via a sua mão enfaixada através da névoa que cobria o seu olho esquerdo, o direito tinha desaparecido, sentindo dores na perna direita, que deviam ser psicológicas porque também ela tinha sido amputada. Um resto de homem, dissera-lhe a mulher, não pretendo passar o resto da minha vida com um resto de homem, tratando de um aleijado sem préstimo.
Pensa ainda no major, tem pena de não o ter conhecido melhor, das contingências da vida os terem colocado em campos opostos, da lei da sobrevivência o ter transformado em algoz. Podiam ter sido amigos, se se tivessem conhecido melhor, se estivessem do mesmo lado da barricada, provavelmente ter trocado cigarros, confidências. Enquanto aproxima o cano da pistola da boca pensa que ainda poderá encontrar o major no purgatório dos assassinos, dos guerrelheiros, pedir-lhe desculpa por aquela morte tão abrupta. Aperta o gatilho, o ruído seco da pisitola ecoa no quarto vazio e assusta os pássaros que cantavam na árvore em frente.

segunda-feira, abril 18

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 8

Publico só o exercício que criei, baseada num guião dado pelo Professor:

A Torre já tinha sido movida, ele não podia ter feito roque, não podia efectuar aquele lance, pensava de si para si Pedro Quevedo, enquanto os soldados lhe amarravam as mãos atrás das costas, junto ao muro branco carcomido por buracos de balas. Enquanto olhava para o muro continuava a pensar na jogada de xadrez do dia anterior, fez uma analogia entre aqueles buracos e a estratégia furada do major, aquela jogada não era permitida. Sempre fora correcto ao jogo como à vida, não podia deixar que alguém lhe ganhasse ao xadrez com base numa jogada proibida. Os soldados encostaram-no ao muro e, de frente para o pelotão de fuzilamento, encarou o major, ainda imberbe, que o comandava e atirou-lhe:
Não podia ter feito roque, a torre tinha sido movida.
Mirando as armas do pelotão apontadas a si, todo o caminho percorrido até chegar ali, àquele momento, passaram diante dos seus olhos como um filme super 8 a preto e branco. A batalha de Mavinga, tropas a correr de um lado para outro, confusão, barulho de disparos, a invasão do inimigo, os estampidos a troarem muito perto e a dor lancinante no ombro e na perna, o sangue, tentou rastejar mas não conseguiu, foi capturado. Passou vários meses num hospital de campanha, num tempo lento. 
Quando recuperou completamente foi levado num carro fechado numa viagem que durou várias horas. A viagem terminou no meio do mato, numa fortaleza com algumas edificações de madeira rodadas por uma paliçada alta. 
O xadrez servia para se distrair, iludir o passar do tempo, jogava com o jovem major, que talvez devido á sua juventude, para se impor como carcereiro, fazia os possíveis por vencer, nunca o conseguindo, recorrendo até, por vezes, a jogadas ilícitas.
Naquela tarde que sucedeu a uma dessas tentativas do major, ao fazer um roque quando a Torre já tinha sido movida, ele surgiu com um ar estranho, um olhar fugidio, como que envergonhado, evitando encarar Pedro Quevedo. Com ele vinham três homens que Pedro nunca vira, grandes e fortes. Dirigiram-se a ele e sem uma palavra içaram-no da cadeira e encaminharam-no com autoridade para um jipe.
Sentia-se perdido sem entender aquela mudança de actuação, sem possibilidades de intervir no seu destino, um sentimento de angústia, de perda, de fim irremediável e inevitável.

segunda-feira, abril 11

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 7

“Flagstaff, Arizona. Um dia de arrasar. O resto do deserto. Monument Valley, como se tivesse sido criado apenas para o John Ford ali situar os seus westerns. Arranha-céus de rocha recortados no horizonte. O Grand Canyon, paisagem lunar sulcada por uma serpente sinuosa com a forma de rio. Dead Horse Point. Ponto onde os mustangs eram encurralados. Quando finalmente arranjámos hotel, era já demasiado tarde para outra coisa que não fosse comer hamburgers na cafeteria. Derreados de cansaço e pó, gastámos a noite a beber cervejas na varanda. Uma rotina a instalar-se nos nossos exercícios nocturnos. O Rogério e a Lena repetindo escaramuças sem fim. Uma espécie de ruído de fundo a que se não presta atenção. A Maria José trocando comigo palavras sobre o nosso dia. Lançando os planos também para o dia seguinte. Activa apenas a Clara, num frenesim de desenhos, notas visuais fazendo as vezes de uma máquina fotográfica. E recolhemos cedo. Desta vez, foi a Maria José que me desafiou a ir até ao quarto dela: for same serious drinking. O que fizemos até cerca da uma. Eu a falar, ao de leve, de Portugal, do meu trabalho, de pequenas coisas quotidianas. A Maria José a falar, ao de leve também, do que tinha sido a sua vida na América. Nenhum de nós disposto a abrir ao outro muito mais do que a sua face mundana.”
(Paulo Castilho, Fora de horas, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1989, p.117)
Exercício - Bloco 7

Rescrever o texto de Paulo Castilho (ver “5 – Sublinhar a temporalidade das grandes viragens (os turns)”), mas alterando o espaço ambiente norte-americano para um outro espaço ambiente à sua escolha.

Exercício:

Madeira. Um dia de Verão. Penetramos, através de caminhos tortuosos, na floresta laurissilva. Descemos ao Ribeiro Frio ainda o sol está a pique no céu. Debaixo do arvoredo frondoso está fresco, há um jogo de luz e sombra que fascina. As várias tonalidades de verde recortam-se no céu azul. O grupo discute o que fazer, uns querem ir aos Balcões, outros preferem ficar por ali a ver as trutas. A Marta, a Luísa e o Gustavo decidem ficar a observar as azáleas carregadas de flores numa miríade de cores e as trutas saltando nos tanques, junto do ribeiro cantante. Caminhamos debaixo de uma abóbada de folhagem num caminho de terra batida. O silêncio reina, só quebrado pela água sussurrante da levada, pelo som dos nossos passos e pelo estalar de algumas folhas. Caminho junto do Antero e da Mariana, a Joana vem atrás com os outros, afasta-se de mim, uma metáfora do nosso casamento, que está por um fio. Passamos um túnel cavado na rocha e chegamos ao miradouro que se debruça sobre a paisagem ímpar. O céu sulcado por nuvens brancas volumosas, o verde a dominar com as casinhas espreitando.À direita a mole da Penha d’ Águia, ao fundo o mar incendiado pelo pôr-do-sol. Procuro a Joana com os olhos, vejo-a no varandim olhando embevecida a paisagem, pergunto-lhe se ainda há alguma possibilidade para nós, só recebo como resposta um olhar de repreensão, como se cometesse uma heresia por falar em frente àquela paisagem. Ficamos lado a lada, cada um indisponível para abdicar da sua posição. 

segunda-feira, abril 4

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 6

Exercício - Bloco 6

Redija os dois clímax, intervalados pela cena de pacificação doméstica, correspondentes à segunda história encomendada pela Metropolitan a Patricia Highsmith (ver na matéria deste Bloco 8).
(não ultrapasse um máximo de trinta linhas e sinalize as três diferentes partes da narrativa em causa)

Exercício:

Chegaram de madrugada à casa de campo isolada. A lua de mel prolongar-se-ia por duas semanas, ela estava feliz, leve, apesar de cansada, ele aparentava contentamento. Enquanto Gustavo tirava as malas do carro ela foi até à cozinha fazer um chá, estava cheia de sede, não estava habituada a beber tanto champanhe. O ruído vindo da cave passou despercebido enquanto abria os armários e contabilizava mentalmente a comida armazenada.
No dia seguinte acordaram juntos e enquanto Gustavo foi à vila comprar pão fresco, Helena ficou a fazer o café e a abrir a casa para deixar o sol entrar. Desta vez ficou surpreendida e preocupada com um ruído de passos, pelo menos assim parecia, na cave, mas a chegada do marido distraiu-a. À hora de almoço, notou que lhe faltava um pacote de bolachas no armário e riu de Gustavo e da sua fome nocturna e quando ele negou não acreditou. Quando deu por falta de um frasco de compota que o marido comprara de manhã, associou-a aos ruídos da cave e, nervosa e aflita, pediu a Gustavo que fosse investigar. 
Este desceu à cave e fitou, espantado, o homem que o olhava com ar assustado.
- Quem é você e o que faz aqui? - perguntou empunhando o taco de basebol com que se munira.
- Não me faça mal, não tenho para onde ir, vivia na rua e entrei aqui para me recolher, como vi que a casa não estava ocupada fui-me deixando ficar, mas não roubei nada, só comida.
Mas você não pode continuar aqui, a minha mulher é que ouviu ruídos e vim investigar,ela não vai consentir que continue aqui.
Faço qualquer coisa, mas deixe-me ficar aqui mais uns tempos, preciso de reunir forças para me reerguer e sair do buraco em que se transformou a minha vida.
Gustavo pensou que aquele homem lhe podia ser muito útil, podia convencê-lo a simular uma agressão contra si e a fugir com o seu carro. Ele mataria Helena e depois armar-se-ia em vítima e correria para a vila culpando o desconhecido pela agressão de que fora vítima e pela morte de sua mulher. Ficaria livre e rico e casaria com Madalena, o seu amor de sempre.
Subiu da cave com toda a tranquilidade e disse a Helena:
- Não há nada na cave, minha querida, isso é tudo fruto da tua imaginação.
- Mas eu ouço barulhos e desapareceu comida da cozinha.
- Não pode ser, só cá estamos nós, com certeza só havia aqueles pacotes de bolachas no armário. Era talvez algum animal que já fugiu. Vamos dar uma volta, um passeio a pé pela região, vais ver que te faz bem.
Passaram o serão a ver televisão e ela esqueceu os ruídos da cave, até porque, por mais que apurasse o ouvido, nada se ouvia.
No dia seguinte estavam os dois na sala quando um homem, munido de um pedaço de madeira entrou subitamente. Helena gritou e correu para a cozinha enquanto Gustavo simulou atacar o homem que lhe respondeu com uma pancada na cabeça, deixando-o desmaiado. Quando voltou a si Gustavo viu, com horror, o homem estatelado no chão com um lenho aberto na cabeça, a sangrar e Helena a chorar, encostada na porta da cozinha com o moinho antigo de pedra na mão.

FCPorto campeão 2010-2011

segunda-feira, março 28

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 5

Exercício - Bloco 5

Escreva um texto de cerca de vinte linhas que corporize o esquema ficcional sintetizado por Jorge de Sena na Adenda temática A (e que diz respeito ao romance Oriente-Expresso de Graham Greene). Pode, no entanto, substituir o ambiente exterior ao comboio – que prefigura a iminência da Segunda Grande Guerra Mundial – por um outro igualmente revelador de uma imensa e densa clivagem.

Exercício:

O comboio entrou lentamente na estação caótica. Pessoas acotovelavam-se correndo de um lado para o outro, crianças choravam, o homem do realejo tocava, um cego pedia esmola, gritando, encostado à porta aberta. Todos temiam a onda que se aproximava e que iria destruir tudo à sua passagem, não deixando uma folha verde sobre a terra. Todos esperavam o comboio que os levaria para longe da destruição, a procurar noutro lado uma outra forma para recomeçarem a vida, o primeiro dia do resto das suas vidas.
Das janelas da primeira carruagem o grupo olhava, imóvel, a enorme confusão do exterior. O ruído chegava abafado pelos vidros duplos, a própria visão era desfocada pela névoa que envolvia a estação, como um véu. Cada um deles transportava o seu próprio inferno pessoal, o seu caos interior, que o do exterior parecia apaziguar. 
Viajava naquela carruagem, um grupo heterogéneo, o casal que já se amara e agora se odiava, a mãe dela, senhora idosa desesperada com a passagem do tempo, inundada pela angústia de tudo o que podia ter sido e não fora, o pai dele, atormentado pelas visões da sua passagem pela guerra, dos homens que vira agonizar à sua frente, sem nada poder fazer. No banco da frente recostava-se, ensimesmada, a adolescente mergulhada nas hesitações da idade, nos dramas do crescimento. 
A mole humana do exterior aproximou-se imediatamente do comboio assim que ele estacou. Todos queriam entrar, fugir, escapar o mais depressa possível à nuvem de gafanhotos que, qual praga do Egipto, se aproximava para destruir tudo, todas as colheitas, todo o trabalho de vidas.

segunda-feira, março 21

Dia mundial da Poesia

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner e Andresen

domingo, março 20

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 4

Exercício - Bloco 4

Crie três a cinco imagens que utilizará num texto ficcional ainda por escrever. A fábula pressupõe o encontro fugaz de um homem e de uma mulher numa área de serviço. Durante quatro anos, sem saberem nada um do outro, encontram-se no motel dessa área de serviço no dia 16 de cada mês impar. O esquema falha apenas cinco vezes, durante esse longo período. No final, quando a mulher do protagonista descobre que tem uma irmã (apenas do lado do pai), os amantes vêem-se subitamente numa festa familiar. A aventura parece acabar de repente, mas, um dia, a casa do casal mais feliz de Alcochete aparece desfeita em chamas (cada imagem deverá ser sucintamente descrita em não mais do que cinco a seis linhas).

Exercício:

Imagem 1

Segundos, minutos, horas, dias, meses, quatro anos passaram e eles encontravam-se naquele motel frio e impessoal daquela área de serviço, mal se conhecendo, só os seus corpos se reconheciam.  As voltas do destino provocaram um encontro a propósito de uma meia-irmã subitamente encontrada, os encontros fortuitos perderam o encanto e terminaram queimados no angustiante incêndio que destruiu aquela casa.

Imagem 2

Os encontros fugazes num motel anónimo da mesma área de serviço, sucederam-se a uma cadência mensal, poucas vezes quebrada, ao longo de quatro anos. Eram encontros quase sem palavras, era o quase anonimato que os atraía, que os excitava. A alegria da descoberta de um novo membro da família dela foi ensombrada pela constatação de que ele era o cunhado. A relação queimou-se, tal como a casa do casal desfeita por chamas súbitas.

Imagem 3

Aquele motel anónimo incendiava-se uma vez por mês quando os seus corpos se encontravam e mergulhavam numa paixão sem palavras. A felicidade da descoberta de um vínculo familiar fez a paixão crescer, reforçou os laços entre ambos. Esconder dos outros os laços que os uniam era afrodisíaco. As miradas cúmplices, os sorrisos subtis, transfiguraram-se em horror diante do quadro das chamas devoradoras que destruíram a casa.

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 3

Exercício - Bloco 3

Continue a narrativa de Italo Calvino (Adenda temática B), tentando articular o seu texto com um dos condimentos aristotélicos expostos mais acima (seja oriundo da Poética ou da Retórica; ver Adenda temática A).
Quando tomava banho numa praia ocorreu à Srª. Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.

Exercício:

Achou que a sua imaginação lhe estava a pregar partidas. Como fora possível ficar sem fato de banho sem ter dado por isso? Mas a verdade é que estava nua. Olhou à volta, desnorteada, como se o fato de banho fosse aparecer a boiar, como por milagre. 
Deu algumas braçadas, pensando como sair airosamente daquela situação, eram dez da manhã e não podia ficar na água até a praia ficar deserta. De repente avistou a uns metros de distância um volume claro que não conseguia identificar por causa do sol, nadou vigorosamente para lá para se deparar com um saco plástico com uma garrafa de água mineral vazia. 
Começou a pensar em voltar à praia assim como estava, talvez encontrasse algumas algas que lhe permitissem tapar-se minimamente até pedir auxílio ao salva vidas. Quando ia recomeçar a nadar viu aproximar-se um bote de borracha e dentro dele alguém que não conseguia identificar porque o sol a encadeava, ia pedir ajuda mas limitou-se a fitar, boquiaberta, o tripulante do bote, o Capitão Gancho, que trazia, preso no gancho que lhe servia de mão, o seu fato de banho e lhe disse com ar severo:
- Vista-se, nestes mares só as sereias podem andar nuas. A sereia, na popa do bote, sorriu-lhe suavemente e começou a cantar.

quinta-feira, março 10

Laboratório de escrita criativa - nível avançado - bloco 2

Exercício - Bloco 2
Imagine que Atla (ver Adenda temática A) não chegou nunca a morrer, apesar de o início o romance começar justamente por narrar a sua morte. Escreva a parte do enredo que daria alegadamente conta da reacção dos personagens, evocados na Adenda temática A, ao terem conhecimento de uma tal notícia (não ultrapasse as vinte linhas).

Exercício:
Os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. O sol desaparecia, avermelhado, na linha do horizonte. Atla surgiu, recortada contra o poente, os caracóis com reflexos acobreados pelo sol emolduravam-lhe o rosto sorridente. De repente, quando entrou no ângulo de visão dos pescadores as gaivotas desapareceram, os olhos de todos, incrédulos, fixaram-se nela, dois ou três soergueram-se, mirando-a, incrédulos, outro avançou um passo inseguro na direcção da porta, a um canto um barbudo engoliu a bebida de um trago, o taberneiro ficou suspenso, o pano imundo com que limpava o balcão, esquecido a um palmo deste.
Atla! - gritaram todos em uníssono.
Algumas portas adiante da taberna, as mulheres envoltas nos xailes escuros movimentaram-se também, incrédulas, uma mancha negra e agoirenta. Ouviram o grito dos homens e, adivinharam mais do que sentiram nele, o júbilo que fez recrudescer o ódio que se tinha apaziguado quando a julgavam morta. Uma escarrou com violência e a saliva bateu no empedrado do chão como uma bala. Ouviu-se murmurar entre dentes: - Puta de sorte, ela não morreu. Voltavam a ter os seus homens pela metade, sabiam que eles continuariam a suspirar secretamente por ela e a inveja corroía de novo as suas almas, como um ácido mortífero.

sábado, março 5

Tentando fotografar um melro preto

Contra o sol só me via a mim no ecrã do iPhone e não me podia aproximar muito ou ele voava, mas consegui :)




segunda-feira, fevereiro 28

Laboratório de escrita criativa - nível avançado

Iniciou-se esta semana o curso Laboratório de Escrita Criativa, desta vez o nível avançado.
O primeiro trabalho era:

“1 – Desenvolva a fábula a partir do curtíssimo enredo criado por Thomas Bernhard (“… um rapaz levou o cão a passear… com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado”). Ou seja: relate – ainda que esquematicamente – o corpo da fábula que terá dado origem ao enredo lacónico e paródico redigido por Bernhard na Adenda temática C ( ver aqui em baixo ). Não ultrapasse um máximo de quinze linhas.”
“Conversão por Kurt Hofmann.”
“Quando escrevo, escrevo em toda a parte, onde quer que seja, é indiferente. Posso escrever num restaurante, posso escrever numa casa alugada, posso escrever em Paris no meio do trânsito, é-me absolutamente indiferente. Quando chega o momento, isso não me incomoda absolutamente nada. A questão é só, quando é que chega o momento. O que eu não posso é começar onde houver sossego e não acontecer nada, porque não posso entrar na questão. Preciso primeiro que tudo de estímulos e de qualquer incidente caótico ou algo de semelhante. O caos acalma. A mim de qualquer modo. E no jornal é realmente tudo caótico. Só que é muito fatigante, porque é preciso converter tudo. É preciso primeiro traduzir em fantasia. Hoje está no jornal que um rapaz levou o cão a passear — você leu? — com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado. Não foi? Algo deste género se imagina depois. Agora, quando se descreve isto assim, é uma idiotice, porque não é nada de especial. Lá se tem de o converter ou de inventar qualquer coisa para lhe acrescentar.”
(Kurt Hofmann, Em conversas com Thomas Bernhard, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, p.33)

Trabalho:

As noites quentes de Agosto, na ilha, não o deixavam ter um sono descansado. A humidade colava-lhe os lençóis ao corpo, o sono, quando conseguia dormir, era agitado por sonhos recorrentes, estranhos. Os problemas conjugavam-se com o clima húmido e quando amanhecia levantava-se atordoado, cansado, quase mais cansado do que quando se deitara. 
Essa noite não era diferente das outras, apesar de uma leve brisa agitar as cortinas, não refrescava, era uma brisa quente, impiedosa. Voltou-se na cama que rangeu, irritando-o, desabafou-se e tentou esvaziar o cérebro de pensamentos, era necessário dormir para poder desempenhar cabalmente as suas funções na manhã que se aproximava. 
Adormeceu por fim para acordar logo a seguir, ou pelo menos assim lhe pareceu. Sonhara que passeava com o seu cão, que o levava pela trela e que chegava ao cimo de um monte, ia subir a uma pedra e… acordou. Voltou-se na cama e adormeceu de novo para acordar sobressaltado daí a pouco. Tinha retomado o sonho no exacto momento de subir à pedra, levava o seu cão, pela trela, subia  ao cimo do monte e trepava a uma pedra e de repente puxava a trela por cima da cabeça para ver melhor para além da pedra mas o cão correra ainda um pouco, duas, três passadas e ele morria estrangulado. Sentia-se sufocar, correu para a janela...